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IX – O Eremita - a Verdade Interior ilumina e encontra a Água da Vida
Mito do Arcano IX – O Eremita - Buscando a Verdade do Coração
Kaira e o Eremita — O Encontro com a Verdade Interior
O céu da manhã ainda era violeta quando Kaira pisou descalça o caminho de pedras. A bruma das montanhas se erguia como véu. À frente, um vulto solitário avançava com passos firmes, iluminado por uma chama que não fazia sombra. Era o Eremita. Não falava. Mas seu silêncio gritava a Verdade.
Kaira:
— Vim de longe, seguindo ecos e miragens.
Procurei na Terra, nos templos, nas estrelas.
Mas agora... é como se tudo me dissesse: “Volta-te para dentro.”
És tu quem eu procuro, Mestre da Solidão?
Eremita (sem parar de caminhar):
— Eu sou aquele que tu és quando silencias.
Sou teu masculino desperto, tua força sem ruído.
Não te darei respostas. Mas te ensino a perguntar melhor.
Não te ofereço o mapa. Mas caminho contigo até o limiar.
Kaira (em lágrimas):
— Mas como conciliar minha sede de céu com o peso da terra?
Como encontrar a Fonte se sou feita de pó?
Eremita (voltando-se pela primeira vez):
— A Fonte nasce onde a terra se rende.
Olha: a luz em minha lanterna é tua.
E a água que flui da montanha... brota do teu próprio coração.
Caminha, Kaira.
Teu silêncio já canta.
Tua busca já encontrou.
Na alvorada do mundo, quando as montanhas ainda estavam nuas e os rios não haviam aprendido o caminho para o mar, um eremita caminhava sozinho, imerso no silêncio que precede toda a sabedoria. Ele não era velho, nem jovem. Sua idade era a de quem conhecia todos os tempos. Ele carregava um bastão, símbolo do poder adquirido através da jornada, e uma lamparina com a chama da Verdade, que não podia ser apagada por ventos ou tempestades.
A luz de sua lamparina não era como qualquer outra luz. Não iluminava as paisagens ao redor, mas sim os recônditos da Alma, aqueles lugares onde a busca por significado se torna uma travessia solitária, distante dos ecos do mundo. O eremita sabia que o caminho que percorria era o da solidão necessária para a descoberta do Divino que habita dentro de cada ser.
Ao seu lado, em um caminho repleto de lavandas roxas e verdes montanhas, erguia-se a Chacana Andina, cruzando o céu como uma ponte entre o céu e a terra. No centro da Chacana, o círculo vazio era um lembrete de que a verdadeira sabedoria reside no que não se vê, naquilo que é intangível, onde a água do rio da vida começa a fluir, descendo das montanhas de pedra dourada. Ali, entre os braços da Chacana, o sol não se escondia, mas surgia com toda a sua força. A água brotava do círculo, refletindo a luz dourada, e o eremita, de costas para a cachoeira, sabia que o seu caminho era o caminho do silêncio, onde a luz não precisava ser vista, mas sentida em seu interior.
O eremita caminhava para o fundo da montanha, onde o espaço entre os mundos se estreita, e ali, ele encontrar-se-ia com a verdade primordial. Ele sabia que para chegar à iluminação, era preciso estar pronto para olhar para dentro, abandonar as distrações e buscar a pureza do ser.
O mundo ao seu redor se desfazia, as árvores e as pedras deixavam de ser formas físicas e se tornavam símbolos da alma. O caminho de pedras sob seus pés era o caminho do autoconhecimento, do retorno à essência. Ele sabia que, uma vez que a luz interna fosse encontrada, nada mais seria necessário, pois o universo estaria contido no coração do Buscador, assim como a Chacana carregava a totalidade da existência em seu círculo vazio.
No final da jornada, o eremita encontraria o que sempre esteve à sua frente, mas somente seria capaz de ver quando, ao aceitar sua própria solidão, ele se tornasse um com o todo.
O Buscador, em sua solitária travessia, encontra a verdade ao se voltar para dentro e olhar a luz que reside dentro de seu próprio ser. A sabedoria não está nas coisas do mundo, mas sim na quietude de nossa alma, onde a iluminação nasce do silêncio profundo.